Era uma quarta-feira, 26/05/2004. Fui ao Estádio Castelão assistir ao jogo Ceará x Brasiliense pelo Campeonato Brasileiro - Série B. Lembrei de minha infância, quando meu pai levava a criançada toda da família para assistir aos jogos do também alvinegro ABC de Natal-RN. Em Fortaleza era a minha primeira vez.
Quando vi a multidão se reunindo, a impressão que me veio foi a de que os torcedores que vão ao estádio poderiam ser comparados, por exemplo, aos fãs de uma banda de rock indo toda semana ao show: todos convergindo para um único lugar, cada pessoa ligada à outra por um ponto em comum: ver o time do coração ganhar a partida, da mesma forma como um rockeiro quer ver sua banda preferida apresentar um show espetacular.
O Castelão parecia mesmo uma festa! A torcida do "Vovô" - alcunha dada ao time pelo fato de ser o clube mais antigo do Ceará - compareceu em peso. Fala-se da bilheteria recorde dos jogos da Série B: 33 mil pessoas, todos torcedores do Ceará. Nenhum do Brasiliense.
O Ceará ocupava a 4ª colocação no campeonato. O Brasiliense, a 2ª. Mas a diferença de pontos era tão pouca que, quem ganhasse naquela noite assumiria a primeira posição. O Ceará jogava em casa e vinha de uma vitória de virada contra o Náutico em plena Recife. A festa da torcida estava bonita. Cada lance bem feito era aplaudido e comemorado.
O Ceará não saía do ataque. Mas o Brasiliense também não saía da defesa. O juiz, coitado, levou tanto palavrão por cada falta que deixava de marcar a favor do time da casa... Mas, parecia mesmo de propósito, era só alguém do Brasiliense pegar na bola, e um jogador do Ceará chegar perto, e o juiz apitava! E só assim, depois de jogadas paradas, é que o Brasiliense desenvolvia os passes.
Porém, como diziam os espectadores, "O Ceará tem goleiro!" Nas poucas vezes em que foi ameaçado, o goleiro do "Vovô" estava lá defendendo, e bem!
Mas os torcedores também se enraiveciam e xingavam a cada erro visto. Era um paradoxo: louvavam, em um dado momento, um jogador que, minutos depois seria chamado de "cego!", "surdo!", "burro!", sem falar nos palavrões.
E o jogo todo permaneceu assim. Até que, no meio do 2º tempo, quase fizemos um gol. Houve quem viu a bola entrar e até comemorou. Mas foi só um golpe de vista. A bola foi para a linha de fundo! À torcida, restou aplaudir novamente o quase-gol.
Logo em seguida o juiz finalmente marca uma falta para o Ceará. E dentro da área! É pênalti!!! A torcida já comemorava, nem precisava bater. Todos já tinham certeza do placar 1 x 0 e antecipavam a festa que ia ser logo após.
Alguns segundos antes do lance os torcedores calaram-se e ficaram todos de pé, esperando o apito. Eu nem consegui ver o lance, diante de tanta gente à minha frente impedindo a visão. De onde eu estava, só conseguia ver o goleiro do Ceará. Fixei-o com o olhar: dependendo da reação dele, seria gol, ou não. E o que vi foi ele pôr as mãos na nuca, e baixar a cabeça, decepcionado. O Ceará acabava de perder a chance de vitória. Todos se sentaram calados, desconsolados...
33 mil pessoas em silêncio, inclusive os jogadores. Dava para ouvir o pensamento em comum que ecoava no ar: "Não podia ter perdido!"
Faltava pouco tempo para encerrar a partida... O jeito era segurar as pontas até o final.
E enquanto todos já se conformavam com o empate sem gols, e o pontinho importante a ser conquistado na tabela do campeonato, de repente um GOL! Do Brasiliense...
"Quem não faz, leva!", gritavam. Nessa hora, quem já estava decepcionado ficou tão triste que o "amor" transformou-se em "desprezo"... Muitos se levantaram e simplesmente foram embora, abandonando o time e o resto da partida.
Aqueles eram os 2 últimos minutos de jogo. Não havia tempo para mais nada. O juiz apitou e apontou o centro do campo, encerrando a partida. Final: Brasiliense (atual líder do campeonato) 1 x 0 Ceará (que depois dessa, caiu para o 6º lugar).
Foi aí onde observei a capacidade que os homens têm de se entristecerem, de emudecerem e se chatearem com algo... Às vezes os achamos tão duros, incapazes de demonstrar o que sentem e pensam. Mas ali no estádio, eles se tornam absurdamente transparentes. Descarregam lá os extremos de suas emoções: da euforia à decepção, da esperança otimista ao desconsolo, da alegria à desanimação...
A volta pra casa foi desestimulante. Ouvi muitos dizerem que nunca mais viriam ao estádio. Culpavam o técnico que escolheu um jogador que, até a partida anterior era reserva, para bater o pênalti; insistiam em xingar o juiz que parecia mesmo ter favorecido o time vencedor. Outros reconheciam que o Brasiliense mereceu, afinal era mesmo melhor time. Havia também quem concluía que o problema, mesmo, era torcer pelo Ceará...
Apenas um comentarista na rádio chegou a dizer que o Ceará havia sido o ganhador moral do jogo, só faltou o gol... Mas isso não servia de consolo para ninguém...
E eu olhava para aquilo, meio sem entender... Afinal, tudo não passava de um jogo, um esporte, uma atividade de lazer, de entretenimento. O pessoal parecia levar tudo muito a sério!
Devo ter sentido sensação semelhante a quando os homens não compreendem quando nós, mulheres, vemos aquele sapato numa liquidação e decidimos comprá-lo no dia seguinte, e voltamos para casa de mãos vazias porque o estoque havia esgotado. Tristes e desoladas, pensamos: “Não podia ter perdido...”